Recital de Canto e Piano – Centenário do Conservatório de Música do Porto
26 Setembro 2017
Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto
26 Setembro 2017

Concerto Canto e Piano – Palavras Oníricas – O Surrealismo Português – Centenário do Conservatório de Música do Porto

Concerto Canto e Piano

Palavras Oníricas – O Surrealismo Português

Centenário do Conservatório de Música do Porto

Ana Barros – Soprano | Isabel Sá – Piano

27 | out | 2017 | 21h30

Auditório do Conservatório de Música do Porto

Escolhemos para este programa três poetas do surrealismo, António Ramos Rosa, Albano Martins e Mário Cesariny.
O surrealismo, embora tendência de curto espectro temporal na Literatura Portuguesa, deixou marcas profundas em alguns dos mais expressivos e consagrados poetas da atualidade.
O surrealismo prega a recriação da sociedade, interferindo de maneira fantasiosa como forma de crítica social e, por sua vez, critica a condição humana diante do mundo, representando o irracional e o subconsciente.
Tal como escreve Mário Cesariny no seu MANUAL DE PRESTIDIGITAÇÃO – “Só a imaginação transforma. Só a imaginação transtorna”
Existem laços afectivos entre as quatro peças do programa. Em primeiro lugar Edward Luiz Ayres d’Abreu foi aluno de Sérgio Azevedo e António Pinho Vargas, seguindo desta forma o legado que estes dois compositores deixam à música portuguesa com a vasta obra que têm composto; mas as palavras que dizemos estão também relacionados afectivamente, já que Ramos Rosa escreveu um livro intitulado “Vinte Poemas para Albano Martins”, mas é também detentor das palavras que tão bem sintetizam a escrita de Mário Cesariny “Escrever para Cesariny é estar corporalmente presente no universo e assim participar na fluidez inapreensível de uma realidade que é tanto universo como escrita, um inabalável espaço.”
Palavras oníricas: o surrealismo português
Neste programa a música de António Pinho Vargas contará com uma nova interpretação, já que estes dois ciclos são já de 1996 e 1998 e foram nessa altura gravados. “Escrever música para um poema já escrito perante mim (António Pinho Vargas) desencadeia uma resposta vastamente libertária. É nessas circunstâncias que as ideias musicais mais extravagantes podem ocorrer, na sua ligação obscura com o sentido das palavras. Schoenberg e os seus amigos na fase atonal – ou da atonalidade livre – face à desconfortável ausência do sistema tonal como articulador de forma, usaram o texto frequentemente como elemento preexistente gerador de formas.” Por outro lado, as obras de Sérgio Azevedo e Edward Luiz Ayres d’Abreu foram pensadas especificamente para completar este programa dedicado inteiramente à poesia surrealista portuguesa.
Este programa será gravado em disco pelas intérpretes já no próximo ano 2016 para a editora mpmp (movimento patrimonial pela música portuguesa).
O intérprete ao iniciar o seu trabalho de descoberta da nova música que tem perante si, lê todos os textos, assim fazem também os compositores que têm o privilégio de escrever sobre poemas que lhes são dados e que depois serão transformados numa paisagem sonora, “ (…) neste caso determinada pelos belos poemas de António Ramos Rosa. Como é evidente antes de começar a compor li os poemas (António Pinho Vargas). E alguns deles e, por vezes, algumas palavras dentro de um poema, desencadearam uma resposta. Alguns exemplos: no poema “tacteio sobre o branco” a palavra tacteio permitiu-me algumas associações com elementos musicais específicos como staccato, hesitando, passagem do cantado ao falado etc; no poema o que escrevo por vezes o verso “um espaço intacto e puro” sugeriu-me no contexto entretanto criado uma cadência perfeita; o verso “um gesto que procura a origem” lançou-me para uma figura musical isolada que, além de ser um gesto musical propriamente dito reclama um determinado gesto físico do pianista; o verso “será que o mundo escuta” obrigou-me a interromper o discurso musical, introduzindo um elemento estranho que pede um outro tipo de escuta, etc.”
E assim colorimos as palavras de António Ramos Rosa, Albano Martins e Mário Cesariny, estas últimas com estreia absoluta neste concerto e tão diferentes na sua escolha. Sérgio Azevedo escolhe o tema do amor, e os poemas foram escolhidos como forma de o ilustrar. O amor visto por Cesariny, é um amor muito lírico, e estes poemas são, em geral, bastante pouco “surrealistas” comparados com outros dele, no entanto foi essa faceta lírica que interessou o compositor e trará a unidade do ciclo. Edward Luiz Ayres d’Abreu entrou de forma mais vincada no tema do surrealismo, no entanto, e devido à escolha das suas palavras, dedicadas também elas ao amor, criará uma ligação com o ciclo composto por Sérgio Azevedo.
Com a nossa interpretação, as palavras ganham vida e voam de encontro ao espectador. “Entre nós e as palavras (…) há palavras imensas, que esperam por nós (…) palavras que nos sobem ilegíveis à boca (…) entre nós e as palavras, o nosso dever falar.”(1) Criamos o nosso universo onírico e puro…
(1) Mário Cesariny, in: Pena Capital, Lisboa, Assírio & Alvim, 1982

Folha de Sala Concerto Canto e Piano -Palavras Oníricas-O Surrealismo Português

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